Duas grandes empresas farmacêuticas, a GlaxoSmithKline e a Merck Sharp & Dohme, estão se preparando para lançar, em 2007, as primeiras vacinas contra o vírus HPV – principal agente do câncer do colo uterino. A vacina da GlaxoSmithKline, contém partículas – imunizantes, porém não patogênicas - dos vírus HPV 16 e 18 (presentes em 70% dos casos de câncer cervical); a da Merck Sharp & Dohme, além de proteger contra os tipos 16 e 18, também contém antígenos dos HPVs 6 e 11, responsáveis pelas verrugas genitais (condiloma acuminado ou “crista de galo”).
O HPV (abreviatura de Human Papillomavirus, ou Papillomavirus Humano) é um vírus que possui mais de cem tipos. Destes, mais de 30 são transmitidos sexualmente e podem infectar a pele e as mucosas da região genital do homem e da mulher (pênis, uretra, vulva, vagina e colo uterino), bem como o ânus e o reto. Na dependência do tipo de HPV infectante, as lesões podem ser benignas (verrugas) ou malignas (câncer). A maioria dos pacientes infectados não apresenta nenhum sintoma, eliminando o vírus pela ação do sistema imunológico (anticorpos).
Depois de obterem excelentes resultados (taxas de eficácia acima de 90%) nos estudos preliminares, os dois laboratórios estão testando a eficiência e a segurança das vacinas em um número maior voluntárias (entre 18.000 e 30.000), condição fundamental para o licenciamento, produção e comercialização em escala mundial.
Nos últimos cinqüenta anos, a prevenção do câncer do colo uterino limitou-se ao diagnóstico precoce das alterações celulares e teciduais indicativas de malignidade (prevenção secundária). O exame de Papanicolaou (lâmina) e a colposcopia (observação da superfície cervical sob lentes de aumento) foram, nesse período, os principais recursos utilizados pelos ginecologistas para diagnosticar - e tratar - a doença em seus estágios iniciais. A descoberta de que o câncer do colo do útero está diretamente relacionado à infecção por certos tipos de HPV, somada à criação de vacinas eficazes contra esses vírus, representam um grande avanço – talvez, o maior de todos os tempos - para a diminuição dos índices de mortalidade dessa neoplasia.
O câncer cervical atinge, por ano, cerca de 470 mil mulheres em todo o mundo; sendo responsável por aproximadamente 270 mil óbitos anuais (um a cada dois minutos). Oitenta por cento das mortes ocorrem em países em desenvolvimento. Estimativas do Ministério da Saúde (INCA) indicam que mais de vinte mil novos casos de câncer do colo do útero serão diagnosticados no Brasil durante o ano de 2005. Nesse período, mais de cinco mil óbitos serão registrados, em nosso país, como diretamente relacionados à doença. A possibilidade de se reduzir essa trágica estatística com a aplicação de uma vacina desperta expectativas muito animadoras entre pesquisadores, médicos e autoridades voltadas para a saúde pública.
É importante lembrar que o HPV 16 e 18 são os mais encontrados nos casos de câncer cervical (70%), mas não são os únicos relacionados à gênese da doença. Outros tipos menos freqüentes, como o 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 56, 58, 59, 68 e o 69 também são capazes de provocar essa patologia. Como a proteção conferida pela vacina é específica (exclusiva) para cada tipo de vírus, as mulheres – ainda que imunizadas – deverão continuar a fazer o chamado “exame preventivo” (Papanicolaou / colposcopia) anualmente.
Um estudo da Harvard University School of Public Health estima que preço do tratamento completo – três doses - ficará entre 240 e 300 dólares por pessoa, o que inviabiliza a sua adoção pelas parcelas mais pobres da nossa população. Em contrapartida, a Área de Genética do Instituto Butantã, em São Paulo, também está desenvolvendo uma outra vacina contra os HPVs 16 e 18. Espera-se que esta, daqui a seis anos, esteja disponível em todos os postos de saúde brasileiros, e que seja aplicada gratuitamente.
* Dr. Carlos Antônio da Costa
CREMESC 9758 - TEGO 035/79
www.drcarlos.med.br
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