A dor pélvica é um dos sintomas que mais atingem (e preocupam) a mulher, sendo responsável por quase um terço das queixas nos consultórios de ginecologia. Suas causas, porém, não se restringem apenas aos órgãos genitais internos (útero, tubas e ovários), podendo envolver também o aparelho urinário (ureteres e bexiga), os intestinos, além dos ossos, articulações, músculos e nervos situados na metade inferior do tronco.
Por haver quase uma centena de causas para a “dor no baixo ventre”, desvendar a sua origem torna-se, algumas vezes, um verdadeiro desafio ao tirocínio clínico do médico, requerendo deste uma minuciosa investigação do problema.
A maneira como se instala a dor (aguda, crônica ou cíclica); sua intensidade; a forma como é percebida pela paciente (em pontada, em fisgada, em queimação, em peso, em cólica, etc.); sua relação com o período menstrual (antes, durante, após, ou no meio do ciclo); sua associação (ou não) com as relações sexuais; a presença (ou ausência) de outros sintomas como febre, corrimento vaginal, dificuldade para urinar, diarréia, prisão de ventre, aumento do volume abdominal, entre outros, nos fornecem pistas valiosas sobre o órgão afetado, orientando o nosso raciocínio para o diagnóstico correto.
Nas dores agudas (de início súbito) e de intensidade progressiva, existe sempre a possibilidade de tratar-se de uma emergência cirúrgica (apendicite, torção de cisto ovariano); hipótese esta a ser confirmada (ou não) pelo exame físico e pelos exames complementares que incluem: exames de sangue, de urina, raios X, ultra-sonografia, tomografia ou, até mesmo, a ressonância magnética.
As dores cíclicas, associadas a um determinado momento do ciclo menstrual, podem ter significados variados que vão desde as conhecidas cólicas que acompanham o fluxo - e que atormentam a vida de 50% das mulheres em idade fértil-, até as que se apresentam no meio do ciclo, em peso, que não duram mais que 48 horas, típicas e coincidentes com a ovulação.
As dores crônicas (de instalação lenta e com episódios recorrentes há mais de seis meses) podem ter origem nas vísceras pélvicas, nas estruturas ósseas (articulações da coluna lombar) e na parede abdominal (hérnias). Duas entidades, porém, devem ser sempre cogitadas nesses casos: aderências e endometriose.
Aderências são como cicatrizes internas que se formam após a inflamação dos tecidos (infecções ou cirurgias no passado). Essas “cicatrizes”, como o próprio nome indica, fazem com que órgãos vizinhos fiquem colados uns aos outros (por exemplo, o ovário adere ao intestino; ou o intestino à bexiga ou à parede do abdome), provocando estiramentos, compressões locais e ... dor.
A endometriose, por sua vez, resulta da implantação de um tecido semelhante ao que forra o interior do útero (endométrio) em lugares onde, em princípio, ele não deveria existir, como na superfície dos ovários, atrás do útero, etc. Como o endométrio, este tecido sangra durante as menstruações, provocando inflamação, tumores císticos e ... aderências(!).
Na maioria das vezes, a causa da dor pélvica na mulher pode ser esclarecida clinicamente; isto é, por meio das informações prestadas pela paciente, pelas evidências encontradas no exame físico e pelos resultados dos exames complementares (sangue, urina, ultra-som, etc.). A Natureza, porém, é muito caprichosa em algumas ocasiões, pois o fenômeno doloroso por ser subjetivo nem sempre provoca alterações nos exames. Nesses casos, a videolaparoscopia (um procedimento diagnóstico e terapêutico, no qual se observa direta-mente a cavidade abdominal por meio de uma microcâmera) é de inestimável valor na investigação.
Por último, não podemos deixar de mencionar a dor de origem psicossomática - expressão sutil de profundos conflitos emocionais que povoam as inúmeras vertentes da condição feminina -, e que requer especial atenção dos ginecologistas.
* Dr. Carlos Antônio da Costa
CREMESC 9758 - TEGO 035/79
www.drcarlos.med.br
segunda-feira, 14 de julho de 2008
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